
quinta-feira, 15 de maio de 2008
"Intermitências da Morte II" ou "Quase Vida" ou "Quase Morte"
Eu vou enlouquecer. Falta pouco. Se ao menos as pessoas ficassem. Quase enlouqueci há um minuto, deitada naquela cama. São muitas as idéias que tomam conta ao mesmo tempo da minha mente, nenhum ser humano agüenta tanta palavra assim. Mas, me disseram também há bem pouco tempo que eu não era humana. E talvez eu acredite neles. Se ser humano é ser igual a toda a gente do mundo eu não sou humana não. Então, não sendo humana, eu agüento trocentos milhões de idéias, todas ao mesmo tempo.
Não agüento não.
Mas já estou melhorando.
Estou já melhor.
Talvez precisem me internar naquela casa de não-repouso de loucos, para ficarem seguros de que minha loucura não os atingirá novamente. Eles querem saber de mim por quê? Para quê?
Talvez, se eu não os incomodasse tanto, me deixassem enlouquecer com dignidade. Enlouquecer com dignidade. Mas eu nem queria incomodá-los. Pelo contrário. Eu faço de tudo para que eles não notem a minha existência.
Passou. Até que.
Eu deveria morrer. É! Morrer! Então o mundo ficaria perfeito. Menos um louco para assustar. Eu não digo nada... e fico aqui escrevendo. Talvez, se eu fosse lá fora e desse um grito. Não tem ninguém para me ouvir. Estão todos muito preocupados comigo. Preocupados com o que eu deveria fazer e não fiz é, ninguém me ouviria. Talvez alguém mais atento em outras coisas, olhasse para mim e me mandasse calar a boca, porque estavam todos ali reunidos para resolverem a minha vida e não tinham tempo para ouvir o que eu queria gritar.
Talvez, se eu conseguisse morrer.
Ainda assim não me ouviriam.
Iriam lamentar e chorar e...
Iriam pensar “ela estava louca. O que ter-lhe-ia acontecido?” (claro que não com essa colocação pronominal). E ficariam, todos no meu velório, lamentando minha morte. E chegaria um alguém que perguntaria “quem era ela?”. O que, de certo modo, me deixaria feliz, se fosse possível isso no meu estado mortal. Alguém no meu velório não estava reunido para decidir meu futuro nunca alcançado.
Eu não teria futuro.
(Futuro, nada, nunca e sempre são sinônimos?
Acho que sim.)
Vou dormir agora.
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