sábado, 14 de junho de 2008



Como é possível?
O sol.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Cardialmente


A porta batendo;
A onda quebrando;
A árvore crescendo,
As raízes afundando.

A Respeito de Conchas


E os
ped
a
ço
s
do meu coração
estão doendo.

"Intermitências da Morte II" ou "Quase Vida" ou "Quase Morte"



Eu vou enlouquecer. Falta pouco. Se ao menos as pessoas ficassem. Quase enlouqueci há um minuto, deitada naquela cama. São muitas as idéias que tomam conta ao mesmo tempo da minha mente, nenhum ser humano agüenta tanta palavra assim. Mas, me disseram também há bem pouco tempo que eu não era humana. E talvez eu acredite neles. Se ser humano é ser igual a toda a gente do mundo eu não sou humana não. Então, não sendo humana, eu agüento trocentos milhões de idéias, todas ao mesmo tempo.
Não agüento não.
Mas já estou melhorando.
Estou já melhor.
Talvez precisem me internar naquela casa de não-repouso de loucos, para ficarem seguros de que minha loucura não os atingirá novamente. Eles querem saber de mim por quê? Para quê?
Talvez, se eu não os incomodasse tanto, me deixassem enlouquecer com dignidade. Enlouquecer com dignidade. Mas eu nem queria incomodá-los. Pelo contrário. Eu faço de tudo para que eles não notem a minha existência.
Passou. Até que.
Eu deveria morrer. É! Morrer! Então o mundo ficaria perfeito. Menos um louco para assustar. Eu não digo nada... e fico aqui escrevendo. Talvez, se eu fosse lá fora e desse um grito. Não tem ninguém para me ouvir. Estão todos muito preocupados comigo. Preocupados com o que eu deveria fazer e não fiz é, ninguém me ouviria. Talvez alguém mais atento em outras coisas, olhasse para mim e me mandasse calar a boca, porque estavam todos ali reunidos para resolverem a minha vida e não tinham tempo para ouvir o que eu queria gritar.
Talvez, se eu conseguisse morrer.
Ainda assim não me ouviriam.
Iriam lamentar e chorar e...
Iriam pensar “ela estava louca. O que ter-lhe-ia acontecido?” (claro que não com essa colocação pronominal). E ficariam, todos no meu velório, lamentando minha morte. E chegaria um alguém que perguntaria “quem era ela?”. O que, de certo modo, me deixaria feliz, se fosse possível isso no meu estado mortal. Alguém no meu velório não estava reunido para decidir meu futuro nunca alcançado.
Eu não teria futuro.
(Futuro, nada, nunca e sempre são sinônimos?
Acho que sim.)
Vou dormir agora.

domingo, 30 de março de 2008


Jacques-Marie Émile e Eu

.
Os outros é
que me
veêm no espelho.
.

sábado, 29 de março de 2008

pal
av
ra
s
ca


in



do...

l tr s f l an o!

Nada Nunca É Sempre!

Eu poderia começar falando de coisas desse tipo. Mas não quero. O querer tem sido fator bastante consagrado nas minhas escolhas. Já chega! Não quero meu querer importunando-me mais. Não agüento ouvi-lo ou senti-lo. Digo agora a ele: vá-se! Leve-te! Parta-te!
Trouxeste-me tanto. Leva de volta de onde arrancaste. Vá. Deixe-me um irmão, talvez um primo ou qualquer outra coisa que substitua essa doença que me causastes. Deixe-me aqui, cura-me!
A beleza que me proporcionastes é extrema e, tão nova e saborosa, causa um prazer que me faz tonta e crente. Creio na felicidade de observar o anoitecer, uma nova e rara flor que acabou de brotar no meu jardim, entre tantas... a vivacidade das cores.
Não quero mais querer. Simplesmente pelo fato de que, o que quero não foi destinado a mim, não me pertence. Sempre achei que daria o destino correto ao meu querer, que não o deixaria ultrapassar a fronteira do impossível, não queria que ele o fizesse. O que é que eu estou dizendo? Eu o levei lá, eu o carreguei pela mão e mostrei-lhe o outro lado, lá é feio. Cinzento escuro. Mas, se fui eu quem o levou até lá... é! E regressei às pressas. Ele tentou me impedir. Ele conseguiu?
Não sei ao certo qual era sua vontade, sei quais não eram.
Ele prefere o lado bonito e azul claro. Mesmo que chova, às vezes. E acredite: chove! Uma chuva rala e gélida. Ele olha pela fresta na janela, não é tão cinzento como lá. Essas nuvens vão passar, aquelas permanecerão sempre lá, naquele mesmo tom: cinza escuro.
Havia um carro. Cortava a chuva. As rodas ligavam-se e desligavam-se do chão, o barulho do pára-brisa livrando-se da água, um som que penetrava os ouvidos e fazia pensar em uma tarde chuvosa na praia, o mar agitado, a areia sempre tão leve e solta, agora pesada e pegajosa e, ainda assim, é tão maravilhoso. Aquele cd para ouvir, aquela música que dá náuseas, aquele frio na barriga, a respiração profunda, e a chuva totalmente indiferente a isso tudo. Casa de vidros por todos os lados não atrapalhando a visão, gotas de chuva escorrendo, rios correndo.
E quando há sol. O há.
Meus pés estão gelados. Calor lá fora que não sei de onde vem e frio lá fora que vem de dentro de mim.
Não quero!
Acredito que não quero exatamente pelo contrário, isso que me devora a alma. Quero agora aquela tarde chuvosa na casa da praia. Eu quero ser aquela árvore dourada da luz de fim de tarde. Eu quero ser aquele rio, que nunca é o mesmo, com aquelas crianças diferentes banhando-se em meu leito. Eu quero ser aquela chuva, que molha aquela pessoa, que acabara de perder o último ônibus para casa, que esquecera o guarda-chuva ao sair cedo e percebe que terá de ir andando, mas acha tudo isso engraçado, belo e divertido.
Não quero isso de agora: ser isso que sou. Desejo ser uma música. Sim, uma música. Uma que dê náuseas em quem escute. Que o faça sentir vontade imensa de sorrir e chorar ao mesmo tempo e acabe por não fazer nenhum dos dois e apenas ouça.
Agora, gostaria de ser o Opera House em Sidney, para causar espanto e fazer alguém arregalar os olhos ao olhar-me. Como se a minha grandeza o fizesse sentir-se grande também. E Belo.
Uma enorme ambição:
Ser a criança que nascera perfeita depois de meses acreditando-se em uma doença congênita. E o sorriso de seus pais. E seus agradecimentos a Deus.
A lágrima desta mesma criança ao ouvir a música que sou.
Mas havia me esquecido que não quero mais querer. Então, não quero absolutamente nada.
Não quero não ser música ou construção ou criança ou sorriso ou agradecimento, nem lágrima.
Isso. Quero não querer. Mas, eu quero. E o que fazer? Quero tanto que dói, queima, machuca. Uma vez ouvi uma música que me fez chorar, depois ouvi mais algumas que me fizeram chorar. Mas aquela, a primeira, vai ser sempre a primeira. Queria que outra tivesse sido a primeira, só para que eu me recordasse dela desse jeito. E ela, essa outra, ainda é mais especial que todas as outras. Ela mora comigo e a carrego aonde vou, virou parte da minha carne e da minha alma. Eu disse que queria ser uma música, pois é, sou quase. Gosto quando me tocam, me ouvem, me estudam, choram ou sorriem quando estou por perto e por minha causa. Gosto quando choram? Sim, gosto. Chorar ouvindo música é transcendental. Eu pareço saber o que é transcendental? Que bom!
Ainda ouço músicas que me fazem querer chorar. Eu, que não quero querer. Tive um sonho outro dia. Sonhei que era uma fada e tinha uma varinha mágica, e havia jardins, eu morava entre os jardins, era sempre primavera. Chovia e era sempre primavera. Quando chovia, com a minha varinha mágica me transformava num rio, para saber como é água entrando em água. Em dias de sol, que era freqüente, gostava de ser borboletas e pássaros, ou uma humilde flor entre as outras nos jardins. E, nas horas vagas, me transformava de volta em fada.
É transcendental ser rio em dia de chuva!
Sinto-me mal, – é tão esquisito sentir-se assim - como se o mundo estivesse se abrindo para engolir tudo que me faz bem, e só restasse para mim esse sentimento de perda e impotência.
Começo a me cansar de tudo, e ainda não consigo não querer.
Agora, às vezes, ouço músicas que me fazem prender um grito. Ele vive dentro de mim.